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True Blood

imagem de Ghuyer
Enviado por Ghuyer em sab, 04/16/2011 - 19:10

Obs: o texto a seguir considera a primeira e a segunda temporadas da série.

Como é HBO, True Blood era inacessível para mim. No meu pacote da NET, o HBO não estava incluído, o que era uma lástima. Logo, qualquer coisa deles eu não via. Eu ainda não usava a inestimável Internet como fornecedora de entretenimento audiovisual – isso começou em 2010. Então, por não ver nem comerciais sobre True Blood, além de envolver vampiros no enredo, eu realmente não sabia do que se tratava. O que eu sabia é que a "Vampira" dos filmes dos X-Men era a protagonista, e já tinha até levado um Globo de Ouro como Melhor Atriz em Série Dramática. Certo que Globo de Ouro está longe de ser uma premiação respeitável, mas Anna Paquin é uma ótima atriz, então eu poderia imaginar que a atuação dela na série vampiresca fosse no mínimo merecedora de elogios – e eu veria True Blood só para tirar essa dúvida.

O que aconteceu é que, em tempos de Crepúsculo, todas as pessoas que eu conheço que viram True Blood me disseram que era a única coisa da atualidade que tratava vampiros seriamente – como vampiros – e não como purpurina-boys-que-brilham-ao-sol. Isso me deixou mais curioso.

Cada vez mais as pessoas falavam, e a série me chamava. No entanto, foi uma peculiaridade que realmente ativou minha vontade assistir True Blood. A participação especial de uma determinada atriz no final da segunda temporada.

A dica foi da minha amiga que mais me incentivava a ver a série. E foi essa mesma amiga que me conseguiu um DVD com as duas temporadas completas. No total, 24 episódios de (quase sempre) 60 minutos e (sempre) instigantes.

Realmente, as pessoas estavam certas. Eu corria o risco de ser sabotado pela expectativa crescente, mas não. Justamente por que eu não sabia nada do enredo. A primeira (na real a segunda) cena já me surpreendeu ao apresentar uma protagonista telepata. Pois é. Depois o próprio título da série é explicado como sendo o nome comercial do sangue sintético que os japoneses criaram para que os vampiros não precisassem mais se alimentar de humanos. Pois é². No começo eu até achei a premissa meio falha. Não pensei que a existência dos vampiros seria tão exposta. Tive um mal pressentimento de que eu não gostaria tanto do que veria a seguir. Porém, certos elementos de True Blood rapidamente me convenceram do contrário.

O primeiro deles, esse sim já mostrado na primeira cena mesmo, é a seriedade com que o assunto é tratado. Vemos na TV de uma loja de conveniências um programa de debates onde uma vampira RP fala sobre os direitos vampiros. Exatamente como os humanos criaram os direitos humanos, os vampiros estão buscando seus direitos vampiros (ou seriam vampíricos?). Pode até parecer idiota, mas a forma como o tema é apresentado o torna tão plausível que é difícil não se convencer.

Da mesma forma que os X-Men, seja nas HQs ou no Cinema, de certa forma tratam de um preconceito com super-heróis – as pessoas com genes mutantes que concedem super-poderes -, True Blood faz a mesma coisa com os vampiros. Confesso que eu nunca entendi muito bem a motivação que levaria alguém a ter preconceito com pessoas com genes mutantes, mas agora eu percebo melhor a questão e acho que X-Men é uma criação artística terrivelmente subestimada. Com os vampiros era o contrário. Eu jamais imaginaria um mundo em que vampiros e humanos convivessem socialmente – teria eu preconceito com vampiros? Em True Blood eu me vi convencido de que os vampiros poderiam muito bem coexistir conosco, considerando a existência de um sangue sintético tal qual acontece na série.

Já começa por aí: a força temática da série. A analogia com vampiros sobre o preconceito em geral que a humanidade ainda sofre é uma excelente forma de dar seriedade à série. Não tarda a aparecerem regozijantes críticas à religião – catolicismo e evangelismo no caso específico aqui, os EUA. As congregações religiosas são obviamente as primeiras a se postarem contra a proposta de união entre humanos e vampiros. Sempre foi assim com qualquer coisa. Negros, judeus, cientistas, músicos, escritores, homossexuais, entre outros infelizes, já foram vítimas do ódio religioso, e alguns desses ainda são. Logo, se toda a humanidade que não segue a palavra do Criador é herege e merece a morte, vampiros então, nem se fala. É claro que eles entram para a fila dos infiéis, com direito a furo no primeiro lugar.

Se tematicamente True Blood é formidável, em termos de narrativa, trama e produção os elogios vão longe também. Para começar, é notável o dedo da HBO. O sangue e a nudez estão presentes, sem frescura. Não há cortes de censura, ou enquadramentos de câmera feitos para não mostrar a nudez dos atores. Vampiros são seres intrinsecamente ligados ao glamour, à libido, ao desejo… Aos elementos sexys que habitam a mente humana. Claro que alguns autores de ficção podem tratar vampiros como assassinos insaciáveis, cruéis e blábláblá, mas eu acredito que, principalmente hoje em nossa sociedade mega-sexualizada, o imaginário do Vampiro está relacionado a uma visão sexy da coisa – com sexo no meio, pelo menos. Façam um teste: vão no Google e procurem ‘vampiro’ nas imagens. Garanto que a maioria delas retratará as criaturas de modo sensual. Caso não se convença disso, procure a palavra em inglês: ‘vampire’. É inegável que Vampiro & Sexo andam juntos hoje. Só que não é só isso. Há um terceiro integrante nessa parceria: Sangue. E de mãos dadas com o Sangue vem a Violência. VSVS, dá até para fazer um logo. Vampiros, sexo, violência e sangue. Tudo isso está presente em True Blood. E felizmente, nunca que o sexo ou a violência é mostrado gratuitamente. Sempre há um porquê.

O que é um alívio. Já vi produções serem prejudicadas pelo uso excessivo e totalmente dispensável desses dois elementos. Vou confessar uma coisa que me incomoda mesmo eu já tendo 18 anos. Na maioria absurda das vezes em que estou vendo um filme em casa e acontece uma cena de sexo, eu fico desconfortável com a idéia de alguém entrar no meu quarto justamente nesse momento. Ou na TV da sala, que seja. Por que nessa maioria absurda das vezes a cena é gratuita e não precisava estar lá. Agora em True Blood eu não preocupo nem um pouco de qualquer pessoa chegar e me ver encarando uma tela de computador com a Anna Paquin e o Stephen Moyer se pegando. Por que aquilo é orgânico à narrativa – e é tão orgânico e natural que os dois namoram fora dos sets de filmagens também.

Falando em narrativa, devo dizer que esta é absolutamente bem construída. A trama de True Blood na primeira temporada é em verdade nada demais. Analisando em retrocesso, a história contada (o assassino de fangbangers – mulheres que transam com vampiros) não é grande coisa. No entanto, a forma com que tudo é montado é ótima. Todos os finais dos episódios da primeira temporada te fazem desesperadamente ver o seguinte. Evidentemente que toda série deveria fazer isso direito, mas True Blood o faz com primazia.

Como eu ia dizendo, a história, no caso não a ambientação total do universo de True Blood – que é muito bem feita –, mas a história ‘da temporada’, digamos assim, embora longe de ser fraca, não das mais interessantes. As motivações do assassino se mostram muito, essas sim, fracas. A revelação da identidade do sujeito é surpreendente, o que é bom, mas demais, o que é ruim. Chega a ser pouco plausível. Mesmo que caiba dentro da lógica da narrativa, não tendo ‘furos concretos’ (?) no roteiro, o personagem não dá uma dica se quer da possibilidade de ele ser o assassino ao longo de toda a temporada, pelo menos até que os mocinhos desvendem o mistério, o que o faz ser único personagem mal construído em toda a série, uma pena, porém apenas um pecadilho.

Isso por que todos os outros personagens de True Blood, junto ao seu elenco, são provavelmente a melhor coisa da série. Eles são tridimensionais, complexos, humanos. Ok, alguns não literalmente humanos. Ainda sim, seja humano, vampiro ou metamorfo, os personagens da série são, sério, algo… fora de série – com o perdão do(s) trocadilho(s):

Sookie é a protagonista telepata, uma Anna Paquin loira sempre com micro-shorts. O fato de ela ler os pensamentos dos outros, o que a torna única, é sua característica que faz com que simpatize mais com os discriminados vampiros. Ela sabe como é não ser compreendida, logo, quando aparece o primeiro vampiro na cidade, ela é a primeira a falar como ele.

Na primeira temporada ela é mostrada mais como a ‘mocinha em perigo’, mas sua personalidade vai ficando cada vez mais forte, e na segunda temporada ela já surge falando com vampiros de igual para igual. Isso é ótimo. Mas ela não é perfeita – o que também é ótimo. O que me incomoda um pouco é que de repente ela tem uns surtos de chatice inconstante – principalmente nos primeiros episódios da segunda temporada. Do nada ela faz uma coisa que te dá vontade entrar na tela para dar um tapa nela. Coisas pequenas, mas que eu fico pensando “Te liga!”. Geralmente suas atitudes questionáveis são logo com o seu amor, o vampiro Bill.

Bill é interpretado com delicada sutileza pelo inglês Stephen Moyer. No começo da série ele é um personagem intrigante por ser misterioso. À medida que descobrimos coisas sobre seu passado vamos nos interessando mais pelo sujeito, “Quem é William Compton?”. Só que quando o mistério termina, e eu quero matar os roteiristas por isso, somos apresentados a outros vampiros muito mais motherfuckers que o Bill. Muita gente, muita mesmo, deixou de gostar do Bill na segunda temporada. Isso se deve, em parte, ao fato de todos os outros vampiros relevantes da série serem mais poderosos – e mais velhos, por isso mais misteriosos também -, o que deixa o Bill meio sem graça.

Outro fato que fez parte da audiência desgostar do Bill foi o modo com que os roteiristas o trataram em relação à Jessica. Para contextualizar aos leigos, sem spoilers, digo que Bill fez uma coisa e precisou ser julgado em um tribunal vampiro. A pena para seu ato foi a Jessica – vejam e entendam (e diga-se de passagem a cena depois do ‘rito’ da Jessica é uma das coisas mais geniais da primeira temporada, talvez o momento mais cômico de todos). Enfim, Bill é como um pai para a Jessica, e como todo pai da televisão, ele parece chato. Isso é ainda mais notável quando lembramos que Jessica tem apenas 17 anos.

Vou dissecar o Bill. Não deixei de gostar do personagem em nenhum momento. Tenho um fraco por protagonistas, românticos fracassados e heróis trágicos. Bill é tudo isso. Ele ama uma humana, mas é um vampiro. Ele quer protegê-la, mas os oponentes são mais fortes. Ele é um vampiro com a própria natureza. Gostando ou não do personagem, é impossível não simpatizar com sua dor. E aqui o ator Stephen Moyer merece muitos créditos por conseguir impor tristeza aos olhos de Bill.

Eu fico indignado com os roteiristas em dois pontos da concepção do personagem de Bill. Sua relação com Jessica eu entendo. E ele ser um vampiro de pouco mais de 100 anos também não incomoda. O problema é que ele é muito simples, em termos de habilidades vampíricas. Isso não é resultado de sua pouca idade. Ok, é, mas só em parte. Ele poderia ter, por exemplo, ter uma habilidade de hipnose maior que o normal; ou ser mais veloz; ou sobreviver mais tempo ao sol; ou qualquer coisa. Entendem? Para que a disputa com outros não ficasse tão dispare.  No final das contas Bill é quase tão indefeso quanto Sookie. Acho que os planos dos autores da série são fazer Bill e Sookie um casal em que um proteja e o outro e vice-versa – como acontece logo no primeiro episódio. Algo que pode se esperar que aconteça muito na terceira temporada.

É uma idéia interessante, essa do casal moderno, de igualdade entre marido e mulher, porém ainda acho que os roteiristas poderiam ser mais generosos com Bill. Principalmente quando o contrapomos com Eric. Aí entra o outro ponto da concepção de Bill que eu não gosto. Eric sempre o tira do sério. Bill nunca confronta Eric, verbalmente, de forma comedida. Está sempre com raiva do sujeito, perde a calma. O que é uma pena. Pois se ele tivesse uma postura mais centrada, Eric não teria tanta influência sobre ele. Quanto mais Bill se incomoda com as atitudes de Eric, mais Eric continuará a incomodar, e mais espectadores gostarão mais de Eric (o que, de novo, é uma pena).

Eric tem mais de 1000 anos e voa. Só isso já bota Bill no chinelo. Ele é loiro e sueco, e o ator que o interpreta já foi eleito cinco vezes o homem mais sexy da Suécia. Daí complica, né? Mas o cara divide a opinião do espectador. Ele é elegante, misterioso, e ajuda nas horas críticas. Por outro lado, ele é ganancioso, arrogante, e um canalha. Alexander Skarsgard consegue fazer um trabalho ótimo na pele do xerife da área 5. Solta frases irônicas sobre situações drásticas com um tom de voz calmo (o que é muito engraçado); faz uma expressão de ‘eu sou o máximo’ que nos irrita ao mesmo tempo em que nos cativa; sabe mentir como nenhum outro; e incrivelmente tem postura de líder. No entanto, apesar desses vários pontos positivos, não acho que ele convença como um vampiro de 1000 anos – único problema na atuação de Skarsgard.

Esses três, Sookie, Bill e Eric, eu acredito serem o centro de atenções de True Blood (na primeira temporada Eric não aparece muito, mas isso é logo resolvido na segunda). Só que esses são só três entre vários da enorme galeria de personagens interessantes de True Blood.

Além dos já citados, aí podemos ver Sam, Tara, Maryann e Jason. Sam (Sam Trammell) eu acho muito parecido comigo em certos aspectos. Ele é outro romântico fracassado, é sozinho, e logo vemos que também tem uma característica que o torna único, como Sookie. Claro, às vezes ele é chato, mas aí é que está a maravilha dos personagens de True Blood. Todos eles cometem erros. São complexos, cada um com suas características próprias, positivas e negativas. Sam é problemático por gostar de Sookie e invejar Bill, tratando-o mal. Porém é consciente o suficiente para fazer o certo. Sua única atitude que eu nunca entendi é o que ele faz na casa de Dawn (Lynn Collins) depois do ocorrido com ela – que por sinal é muito, muito gata. Basicamente a única razão para isso foi uma implicação furada para o fechamento da trama. Não para explicar sem dar spoiler. [SPOILER: por que raios depois da morte de Dawn ele entrou na casa dela para cheirar suas cobertas? Era a cena de um crime, e o modo apaixonado com que ele se embriagava pelo cheiro da garçonete só nos fez desconfiar de ser ele o autor do assassinato, truque de roteiro. Depois, no último episódio, ele pega o colete que Rene esqueceu no bar, por acaso o cheira, e liga o odor ao das cobertas de Dawn, descobrindo que Rene é o assassino. Ok, mas por que Sam foi lá cheirar a cama de Dawn? Isso não é explicado. É um furo].

Seguindo com os personagens. Agora as exceções, os que não gosto. Eu me divido entre a Tara (Rutina Wesley) e a mãe dela (Adina Porter). Não sei dizer qual delas eu mais detesto. A mãe dá mais motivos concretos para o ódio, mas a Tara me irrita tanto… Acho ela patética total. Não é só a personagem. A atuação de Rutina contribui para isso, visto que seu tom de voz é terrível (somado ao detestável sotaque do interior estadunidense). Não que ela atue mal, ela até emprega energia à Tara. Mas eu não tenho como evitar. Detesto ela. No final da segunda temporada então, não há o que comentar.

Por sua vez, o primo de Tara, Lafayette (Nelsan Ellis) é bem o oposto. Um cara bala. Tinha tudo para ser uma caricatura: negro, homossexual, cozinheiro. Mas felizmente e ator Nelsan Ellis encarna o personagem com tanta naturalidade, que o potencial caricatural de Lafayette é logo esquecido. Ele é interessante, pois é um gay drag queen e machão. Parece implausível, e é quase absurdo, mas de novo palmas para o ator que deixa tudo isso soar natural. Mesmo com sua aparência de superficial, chamando todas as mulheres de ‘bitches’ (putas), e tratando trivialidades com certa arrogância, na hora do aperto ele é o amigo que todos gostariam de ter. Principalmente com Tara, Lafayette sempre está disposto a ajudar. Ok, ‘sempre’ foi equivocado. Tara se mete em grandes problemas na segunda temporada por que Lafayette não prestou atenção nela. Mais uma vez, o melhor da série: os personagens mudam. Não bruscamente, mas através de situações metodicamente espalhadas no roteiro ao longo dos 12 episódios de cada temporada.

E em termos de mudança, ninguém supera Jason, o irmão de Sookie. Interpretado com extrema competência por Ryan Kwanten, Jason é provavelmente o personagem mais complexo de toda a série. No início notavelmente desligado da seriedade de alguma de suas ações, Jason é um cara relaxado (no sentido de curtir a vida), mulherengo, sem preocupações. Para exemplificar, em um dos diálogos mais brilhantes da primeira temporada, ao ser questionado sobre seu possível envolvimento em um assassinato, depois de os policiais o deixarem chegar a uma conclusão, ele diz “Qual é, Andy! Eu não sou tão esperto!” esboçando um sorriso inocente de satisfação (em inglês a frase soa melhor: ‘Come on, Andy! I’m not that smart’).

Ele é tão inconseqüente que chega a culpar a irmã (e agredi-la) por um acontecimento triste na vida dos dois, sendo que Sookie não tinha nada a ver com aquilo. No entanto, vai aos poucos amadurecendo. Devido a sua inocência, acaba confiando demais nas pessoas, e quando confrontado com uma traição, age de forma drástica (e perigosa). Eu não me surpreenderia se Jason vier a se tornar um personagem decisivo em temporadas futuras.

Contrastando com Jason, o detetive Andy Bellefleur é um que ao invés de mudar gradativamente, sofre uma grande mudança na segunda temporada. Indignado por nunca ser levado a sério como policial, e se sentindo humilhado depois de ter preso alguém que não era o assassino procurado, Andy se afunda na bebida. Foi uma solução ótima. Primeiro, inverteu a situação do personagem completamente – de forma até poética, arrisco dizer. Se antes ele estava sóbrio acreditando ser verdade uma mentira e ninguém o respeitava, agora ele estava bêbado, porém sabendo da verdade e ainda assim ninguém o ouvia. Há uma parábola curiosa aí. E depois, Andy acaba servindo como um excelente alívio cômico. O ator Chris Bauer trocou a cara emburrada por uma expressão de ‘foda-se’ e passou a empregar uma voz mais grave, em um tom de ‘foda-se’ também. Tal receita o deixou muito divertido.

Também divertida, mas em outro nível, está Maryann. Desde a primeira cena em que ela aparece já sabemos que ela é do mal. E acreditem, ela é muito do mal. Talvez tendo consciência da mediocridade do primeiro vilão, agora os roteiristas capricharam. E os responsáveis pelo casting também: encontraram uma agulha no palheiro. Michelle Forbes foi simplesmente uma escolha sensacional para dar vida à misteriosa antagonista. Escorria maldade da tela do meu computador. Maryann é totalmente maligna. É querida com todo mundo, bem educada, bem humorada, bonita, elegante, mas tu sabe que ela é do mal. Michelle Forbes certamente merecia uma penca de prêmios por essa performance. Eu fiquei totalmente surpreso quando fui ver sua filmografia e constatei que ela é a Kate de In Treatment. Isso mesmo, ela é a mulher do Gabriel Byrne na série psicológica. Essa disparidade de personalidades que ela consegue dar vida é notável. Quero vê-la ganhando prêmios!

Também quero ver o Reverendo Newlin morto. Ponto chave para a relevância de True Blood como série séria, a crítica à religião se mostra ainda mais presente na segunda temporada. Existe a Sociedade do Sol, uma congregação de religiosos almofadinhas que odeiam vampiros, e estão montando um exército para destruí-los. A motivação furada do Reverendo é que os vampiros mataram sua família. Agora me diga, se a sua família fosse morta por um humano, você pregaria a aniquilação da humanidade? Apertando mais: se você é branco, e sua família é morta por um negro (ou vice-versa), você sairia por aí gritando que todos os negros devem morrer (ou brancos, caso contrário)? Botando pressão: seu melhor amigo mata sua família, você acha a família dele toda deve ser morta? Se você respondeu ‘sim’ para qualquer opção, você é um retardado, e um filho-da-puta e um pau-no-cu, e é por causa de pessoas como você que o mundo continua na merda que está hoje.

O Reverendo Newlin é uma dessas pessoas. Essa gente de pensamento limitado, lotado de preconceitos, ignorâncias, fanatismos e quase sempre habitado por um amigo imaginário tripolar que mora no céu. Botar a culpa em alguém em função de sua ‘raça’ ou qualquer característica generalizada da pessoa é lastimável, mas ainda na moda hoje. Os Newlins (o reverendo e sua esposa – opa, hipocrisia no ar) são ativistas dessa moda de ‘bons costumes’. A figura do Reverendo só não é caricatural por que representa uma parcela significativa do povo estadunidense (a série se passa lá, então nos atemos a eles). E o ator Michael McMillian consegue deixar o espectador com vontade de esbofeteá-lo, o que é ótimo. McMillian deixa o Reverendo corretamente nojentinho e detestável – e o nojentinho serve também para a esposa, Sarah, apresentada como uma espécie de Barbie, embora a atriz Anna Camp já nos dê dicas de que sua personagem também passará por mudanças.

Completando o elenco de apoio, temos ainda uma porção de nomes: Mehcad Brooks como Eggs, bobão namorado de Tara; Todd Lowe como Terry Bellefleur, primo de Andy, um ex-soldado que sofre com os efeitos da guerra de forma contida, e que assim como seu primo, porém de modo diferente, também nos oferece uma parábola de personalidade na segunda temporada. [SPOILER: notem como ele fica mais sóbrio sobre o feitiço de Maryann. Referência direta ao treinamento militar e crítica ao exército estadunidense (ou qualquer outro). Fica evidente como o exército destruiu Terry. Ele está tão abalado, que só funciona quando sobre ordens, quando não precisa tomar decisões. Ele, como todos os soldados do mundo, é robô. Foi tornado um robô funcional durante os anos no exército, e devolvido como um humano problemático]; William Sanderson como o Xerife Don Dearborne, que na primeira temporada aparece como o lado consciente da lei enquanto Andy sai de foco, e na segunda se mostra já cansado demais para o cargo; Kristin Bauer é a meretriz de Eric, Pam, e faz um belo trabalho exalando arrogância e lançando olhares de superioridade (‘como eu sou chique’); Allan Hyde é Godric, o fodaço mentor e criador de Eric, e mesmo tendo apenas 21 anos, o ator é competente em transmitir a seriedade, humildade e inteligência de um vampiro de quase 2000 anos (arriscada, mas acertada escolha de castingpara surpreender o espectador); Jim Parrack é  o filinho de mamãe Hoyt, e Dale Raoul a mamãe. Hoyt é um sujeito legal e inconformado com sua situação, lembra muito um amigo meu (e um pouco eu), sua mãe não demora muito a se mostrar uma mulher detestável, e ele tem a namorada mais invejável de todas: Jessica; Jessica por sua vez é vivida pela belíssima Deborah Ann Woll e uma sacada genial por parte dos roteiristas. A inclusão de Jessica na história deixa tudo mais interessante. Primeiro por que é algo que você realmente não esperava que iria acontecer, e segundo por que depois que acontece é ótimo. Ann Woll, além de linda de morrer, tem um olhar e um sorriso estonteantes, convence perfeitamente como uma vampira adolescente recém convertida e cheia de impulsos (e curiosidades), e consegue fazer uma cara que é paradoxalmente safada e ingênua.

Então, finalmente, a Rainha. Pegue a descrição que eu fiz para Jessica e eleve na potencia que achar necessário. Eis a Rainha Sophie de Evan Rachel Wood. Sim, a menina de Aos Trezes (Thirteen, 2003), a Lucy de Across the Universe (Across the Universe, 2007), a filha de Mickey Rourke em O Lutador (The Wrestler, 2008). Ela, essa mesma, ela é a Rainha vampira de Lousiana. Sempre tendo atuado como meninas queridas, ou adolescentes queridas, ver Rachel Wood como uma vampira é no mínimo… inesperado. Como uma Rainha, inusitado. Como a Rainha Sophie, sonho (ou fantasia… parei). Assistir sua interpretação passa uma indescritível mistura de sensações. Intriga, admiração, medo, fascinação, atração (sexual)… A lista vai. E ela é também muito irônica – fato mais do que comprovado no primeiro episódio da terceira temporada.

Essa nova terceira temporada, aliás, promete muito. Muito mesmo. Muito em escala homérica. Se a segunda temporada já abriu portas para uma formidável expansão da trama, a terceira já começa derrubando as paredes. O primeiro episódio é fantástico, lotado de cenas geniais. As duas teorias que eu tinha para o que acontecia com o Bill foram uma botada por água abaixo, e outra confirmada meio certa (metade mesmo). O 75% de mistério são realmente uma surpresa, uma grata surpresa. E outra surpresa é a revelação sobre o real motivo para as vendas de V. Preciso dizer que foi o único ponto frustrante da nova temporada. Decepcionante mesmo. Mas isso é só um pecadilho, considerando a excelência desse primeiro episódio ‘Bad Blood’ e as promessas para uma temporada grandiosa.

Então, True Blood definitivamente não é apenas ‘mais uma série sobre vampiros’. Querendo encarar a produção como existindo somente por causa dessa onda de vampiros estarem na moda, pelo menos a encare como Série sobre vampiros, e não como ‘mais uma’. True Blood é muito mais do que sangue e violência, como eu procurei deixar claro ao longo do texto, e mesmo que fosse só isso, já estaria milhas à frente das concorrentes The Vampire Diaries e Crepúsculo que nem sangue e violência têm. True Blood é True Vampire.

E é necessário dizer, True Blood é pontuada por arranjos instrumentais lindos. Foi Bad Things, do Jace Everett, a ótima canção country rock que ficou famosa por tocar nos créditos iniciais, mas trilha original de True Blood é o que mais brilha. Nathan Barr criou uma série de peças instrumentais evocativas para cada momento da série, e aposto que se tornará um disputado compositor no futuro – seu único tropeço é na segunda temporada, nas cenas em que Jason se faz de herói, pois o tom irônico da música contrasta demais com a seriedade da situação (na primeira vez, funciona, mas depois, atrapalha).

Considerando que não li nenhum livro dos que inspiraram a série, preciso dizer que não sei até que ponto é a série que é genial ou a adaptação que é esperta. Porém, pelo que me comentaram, Alan Ball foi um gênio ao conseguir transformar uma série de livros medíocres em uma série de TV tão maravilhosa. A autora é membro-mor de uma dessas igrejas evangélicas dos EUA, logo, constatando o que a mórmon Stephenie Meyer fez com Crepúsculo, acho lógico pensar que a cristã também tenha deixado sua crença limitar e censurar sua criatividade artística. Sorte que temos um experiente roteirista sem esses freios para dar vida legítima aos fascinantes personagens do universo de True Blood.

Comentários

imagem de Hallyson Alves

Enviado por Hallyson Alves (não verificado) em dom, 04/24/2011 - 18:50

Muito boa sua análise de True Blood. Sobre o fato de Sam ter ido à casa da Dawn, a resposta está justamente no seu próprio texto: Sam vai a procura de quem praticou o assassinato da garçonete, farejando os cobertores.
Não creio que tenha sido uma falha da produção da série.
Abraço

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