Capitão América: O Primeiro Vingador

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Enviado por Ghuyer em sex, 07/29/2011 - 04:34

Quando Joe Johnson foi anunciado como diretor de Capitão América: O Primeiro Vingador (Captain America: The First Avenger, EUA, 2011), uma aura de medo se instaurou em muitos fãs do personagem, visto que o último filme do diretor havia sido o péssimo O Lobisomem. Por sorte, o medo se mostrou exagerado. E Capitão América um ótimo filme.

Abrindo o filme com uma expedição no Ártico nos dias atuais, a narrativa logo volta para a II Guerra Mundial, onde primeiro vemos o oficial nazista Johann Schmidt invadindo a Noruega atrás de um artefato místico da mitologia nórdica, para depois sermos apresentados ao jovem magricelo Steve Rogers (Chris Evans) que, depois de várias tentativas frustradas, finalmente consegue se alistar no exército graças à boa vontade de um cientista que vê nele algum potencial. Não demora muito e Steve, com seus ideais nobres, aceita participar de um experimento científico que, dando certo, resultaria em uma grande vantagem para os aliados na frente de batalha contra os alemães.

O curioso do Capitão América, é que o personagem foi criado menos de um ano antes da entrada dos Estados Unidos na guerra. Lançado com a capa ilustrando o herói dando um murro na cara no ditador nazista, Capitão América se tornou rapidamente um ídolo fictício para a população norte-americana. Hoje, no aniversário de 70 anos do personagem, a maior parte dessa idolatria não existe mais, uma vez que o nazismo está longe de oferecer uma ameaça. Porém, isso não impede de reviver o bandeiroso sob um olhar mais contemporâneo.

Não conheço quadrinhos para poder comparar tanto a trama quanto a personalidade do Capitão América presente no filme, mas no geral dá para ver o empenho do roteiro em criar uma aventura relativamente moderna sem sacrificar a essência do personagem. Isso é notável na construção de sentido do escudo do herói. Em mais de um momento vemos Steve segurando alguma coisa para servir de proteção, então sua escolha pelo escudo com a bandeira dos EUA como sua arma principal nos parece mais do que justificável (até óbvia). Escolha essa que é consequência de muito mais além do simples costume de Steve em se defender, refletindo principalmente sua tendência de justiça. O Capitão América não parte para a luta. Ele é um defensor. Tudo bem que o personagem tem seus momentos impulsivos, mas sempre há uma causa maior por trás de suas atitudes (apanhar o espião-assassino, salvar o amigo, evitar a destruição da cidade). E toda essa gama de características é muito bem apresentada pela performance tranquila de Chris Evans.

Assim como muitos reclamaram da contratação de Joe Johnston para a cadeira de diretor, muitos também reclamaram da escalação de Chris Evans como o protagonista. Não fui um desses. Sempre acreditei no potencial do ator, e aqui ele comprova que eu estava certo. Evans faz primeiro um Steve Rogers com um olhar desanimado, mas com determinação visível, ao passo em que vai construindo um Capitão América empolgado e energético. O destaque de sua atuação vai para sua cautela não só nos primeiros momentos depois de passar pelo experimento que o transforma em “supersoldado”, quando ainda está se acostumando com seu físico exuberante, mas em todos os momentos de luta, quando ele discretamente retrata a inexperiência de Steve em combate. Evans parece à vontade no papel de Capitão América, e isso é invejável.

Como não podia deixar de ser, um herói sozinho não é nada (o Batman tem o Alfred), e Chris Evans tem um baita elenco de apoio. Ajuda também o fato dos personagens coadjuvantes serem mais interessantes que a média. Começando pelo melhor amigo do protagonista, Bucky, que é interpretado por Sebastian Stan primeiro como um amigão pegador, e depois como um soldado desgastado, e o mais importante: sem ficar enciumado com Steve devido a sua transformação; muito pelo contrário, dando apóio ao amigo. Depois, Tommy Lee Jones era a melhor escolha possível para viver o Coronel Chester Phillips, visto estar mais do que acostumado com personagens do tipo. Dominic Cooper surge como um divertido e criativo Howard Stark, com um bigodinho e um timing cômico que lembra Charles Chaplin (e é curioso notar que no filme Chaplin o eterno comediante foi interpretado justamente por Robert Downey Jr., que faz o filho de Howard, Tony, em Homem de Ferro). Em curta, porém marcante participação, Stanley Tucci retrata com dignidade o alemão Abraham Erskine, responsável por desenvolver o soro que cria o Capitão América, acertando tanto no sotaque levemente marcado, como no olhar cansado do cientista. No outro lado da força, o baixinho Toby Jones acerta em cheio ao fugir do estereótipo do cientista do mal, compõe o Dr. Arnim Zola como um sujeito que constantemente mostra incerteza com os próprios procedimentos, bem como com a postura de seu superior, o oficial Johann Schmidt que, por sua vez, é encarnado com gosto por Hugo Weaving. O engraçado é que Weaving já havia trabalhado com o diretor Joe Johnston em O Lobisomem, porém como um policial bem intencionado. Agora, o eterno Sr. Smith faz o malvado Caveira Vermelha, e se diverte no papel. Homem convicto de seus ideais até a morte, Johann Schmidt não mede esforços para obter o que deseja, e, vilão inteligente, não parte para a grosseria, preferindo sempre lidar com os problemas do modo mais pragmático possível. Weaving não mostra dificuldade alguma em retratar a obsessão e a calma do Caveira Vermelha, oferecendo uma ótima performance que mistura bem essas duas características aparentemente incompatíveis.

Da mesma forma, os roteiristas Christopher Markus e Stephen McFeely encontram um modo eficiente de tratar ciência e fantasia lado a lado, embora não se aprofundem na temática (o que, de certa forma, é até bem pensado, pois uma discussão assim poderia destoar do foco do filme). O Caveira Vermelha toma posse de um artefato “mágico”, criado pelos deuses nórdicos (vide Thor), e decreta com firmeza que ele vê como ciência o que a maioria vê como magia. A fonte de energia é mágica, mas a apropriação dessa energia é feita através de tecnologia provinda da ciência. Essa situação, mesmo sem ser abertamente discutida pelo roteiro, dá base para pensar na plausibilidade do universo do filme. Porque, basta olharmos à nossa volta, tudo tem uma origem natural, e é artificialmente/cientificamente apropriado por nós. Não? Ei, pensem assim: antigamente o trovão era um deus. O símbolo de Zeus era um relâmpago (aliás, “Z” remete a isso), mas vamos falar da mitologia nórdica, que é a abordada em Capitão América. “Trovão”, em inglês, é “Thunder”. E “Thor” é o deus do trovão. “Thunder/Thor” – mais, quinta-feira em inglês é “Thursday”, e não é difícil perceber a construção silábica da palavra: “Thor’s Day”, ou seja, “Dia de Thor” (e o inglês é uma língua derivada do alemão, uma das vertentes principais da mitologia dita nórdica). Logo, os trovões, há muito tempo atrás, eram relacionados às ações de um deus. Ou seja, algo que hoje entendemos como natural, antes era visto como sobrenatural. O meu ponto com isso é que, mesmo que o cubo utilizado pelo Caveira Vermelha seja um artefato mágico criado pelo deuses dentro do contexto dramático do filme, se torna passível de compreender o pensamento de Johann Schmidt em pensar aquilo como ciência. E na real em nenhum momento aparece algum deus em Capitão América. Se sabemos que aquele cubo é realmente cunhado pelos deuses, é porque já vimos o filme do Thor. No entanto, ter visto Thor ou não é irrelevante na hora de entender a trama de Capitão América, uma vez que o roteiro espertamente apenas remete de leve ao longa do deus do trovão, sem depender do mesmo para fazer sentido (e a mesma coisa acontece em relação a Homem de Ferro; só o Hulk fica de fora – eu acho).

Agora se o roteiro faz uma boa mistura de ficção científica e fantasia, além costurar referências aos outros filmes da Marvel, a direção acerta em firmar toda essa aura de “uau” em uma instância crível. Joe Johnston consegue carregar o filme com um bem-vindo realismo, embora, assim como em Harry Potter e As Relíquias da Morte II, essa decisão implique em um baixo impacto emocional. E isso até não seria problema caso outros dois detalhes não fossem tão presentes no filme. Primeiro, efeito devastador causado pela arma desenvolvida pelo Caveira Vermelha, que desintegra as pessoas, é tratado com o maior desdém por Johnston. Depois, o roteiro insiste em um romance bobo entre o protagonista e uma oficial do exército, que culmina em uma frágil cena no final do filme.

Aliás, o dispensável interesse amoroso do Capitão América, Peggy Carter, é a única personagem totalmente inverossímil do longa. Não dá para acreditar que uma mulher chegaria a um posto de prestígio no exército dos EUA na década de 1940, sendo que até hoje elas são tão subestimadas não só pelos militares, como pela sociedade em geral. Hayley Atwell até tenta demonstrar uma firmeza no papel, mas é sabotado pelo roteiro (vejam bem, até o roteiro a subestima, afinal, ela só está ali para ser a mulher do Capitão América).

Mas o problema maior do filme se dá no fato de que as ações do Capitão América, apesar de efetivas, nunca parecem tão grandiosas como deveriam. Sim, as explosões exuberantes dão a impressão de grande coisa, mas elas só acontecem dentro de um contexto pequeno. O único inimigo retratado no filme é a Hidra, o centro (fictício) de pesquisas nazista. Hitler é até citado, mas de passagem, no blablabla de conversa de bar, e nunca ativamente. Os outros pontos de embate da II Guerra Mundial nunca são mencionados pelo roteiro, o que faz uma tremenda falta na hora de contextualizar o que ocorre no filme com o resto da guerra. O resultado é que, grosso modo, não parece que a história de passa na II Guerra Mundial! Isso é um problema.

Sorte que a recriação de época do filme é excelente, assim facilitando ao espectador se situar no tempo. Já estar acostumada com o cenário da ocupação nazista (trabalhou em A Lista de Schindler, O Pianista e Bastardos Inglórios), a figurinista Anne B. Sheppard faz um trabalho competente no desenho das vestes de todos os vários “tipos” de soldados mostrados (os nazistas, os caras da Hidra, os norte-americanos...), e merece um elogio à parte pela recriação do uniforme do Capitão América. Sheppard transformou aquela túnica exageradamente vistosa e azul em um uniforme prático, pouco destoando do restante dos aliados, porém sem perder o estilo. Tirar as asinhas do capacete foi uma ideia genial (desenhá-las, invés, melhor ainda), assim como não esquecer as marcas desgaste no escudo.

Aliado ao figurino, a direção de arte de Rick Heinrichs remete muito bem aos anos 40, com a devida licença poética para detalhes específicos como os designs do QG do Caveira Vermelha e do armamento fictício desenvolvido pelo mesmo. O melhor do trabalho de Heinrichs é seu cuidado para tornar crível justamente a “tecnologia fantasiosa” do filme, fazendo um discreto uso da estética steampunk, só que humildemente colocando energia divina no lugar de vapor.

Falando novamente em deuses, os efeitos visuais de Capitão América estão maravilhosos. Não apenas eles aparecem graficamente convincentes, como são utilizados na medida certa, e quase sempre soam realistas – o que infelizmente faltava a X-Men: Primeira Classe. O melhor efeito visual é aquele que tu não enxerga, e há um pouco disso no filme. Já o design de som, embora competente, não é tão delicado como o de Homem de Ferro, por exemplo. E fechando a ala técnica do longa, o maquiador David White faz uma boa caveira vermelha para o Caveira Vermelha, mesclando o repulsivo com a apresentável. Como ele mesmo diz: “algo terrível sem entrar muito no grotesco” e, talvez o mais importante, evitando que Hugo Weaving ficasse irreconhecível por baixo do molde vermelho em seu rosto.

Por fim, vale dizer que Alan Silvestri compõe uma trilha empolgante com o devido toque militar, mas falha ao criar um tema ideal para o protagonista. É bom, mas não é grandioso como deveria. Talvez essa seja uma frase boa para definir o filme como um todo. Eu disse “talvez”.

Tratando-se de basicamente um grande flashback (objetivamente falando, o filme não é mais que isso), Capitão América consegue ter uma identidade própria, o que é admirável, ainda que no final das contas e na maior parte do tempo soe mais legal do que sério.

Obs: não há cena pós-créditos, pois, assim como em O Incrível Hulk, a mesma foi colada direto na sequencia final do filme - o que é decepcionante.

Obs 2: a "verdadeira" cena pós-créditos, um teaser d'Os Vingadores, foi retirada das cópias do filme exibidas para a imprensa, por isso a primeira observação.

Poltronas 

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