As Aventuras de Pi

imagem de Giordano
Enviado por Giordano em ter, 02/05/2013 - 16:08

Antes de qualquer coisa, tenho que afirmar três coisas. Primeiro, o protagonista de “As Aventuras de Pi” é um dos, senão o personagem ficcional que mais me identifiquei  em toda a minha vida. Segundo, devido à primeira afirmação, “As Aventuras de Pi” se tornou automaticamente um dos meus filmes favoritos. Terceiro, devido às duas primeiras afirmações, minha crítica ao filme está muito mais contaminada pela emoção do que pela razão, portanto, me abstenho de um julgamento imparcial. Mas vamos lá.

Um conceito primitivo com o qual o cinema está bem familiarizado é o do totem como espírito animal que designa o caráter e a índole do indivíduo que rege. Desse conceito, vieram os Daemons, de A Bússola Dourada; os Power Rangers Força Animal; os animagos de Harry Potter; para ficar só em exemplos recentes, pois a lista poderia seguir eternamente. O homem sempre projetou suas emoções nas espécies com que convive. Infelizmente, da Idade Média para cá, a humanidade se viu cada vez mais distante dos significados que povoam a natureza. Tanto o cristianismo quanto o cientificismo afastaram a sociedade desses símbolos. Desde então, sempre coube à arte recuperá-los. “As Aventuras de Pi”, em sua essência, carrega muito forte o conceito de totem.

Como sempre, gosto de prestar atenção em como os créditos iniciais estabelecem o universo e o discurso do filme.  O filme em questão abre, de forma lúdica, com planos de diversas espécies de animais no zoológico, combinando o nome do creditado com algum animal. Não sei se foi ao acaso ou se há algum tipo de piada interna sobre qual nome aparece junto de cada animal, o que sei é que essa escolha gerou certos risos nas três sessões que fui de As Aventuras de Pi, pois a ligação do nome ao ser é automática. E para quem já viu o filme, a brincadeira faz muito sentido.

O livro canadense do qual o filme foi adaptado é um clássico de adoção em escolas na literatura americana. Nunca emplacou no Brasil, o que é irônico, pois a assumida inspiração do autor Yann Martel é no livro brasileiro Max e os Felinos, de Moacyr Scliar, que não gostou muito da “inspiração”, gerando rumores de plágio. No entanto, os dois autores conversaram, e o problema não foi adiante. Não há tantas similaridades assim no livro. Apesar da “storyline” parecer a mesma, são conceitos muito diferentes. Enquanto Max é uma alegoria ao nazismo, Pi é uma história ecumênica de auto-descobrimento.

A história parte da conversa entre o professor Piscine Molitor, de meia idade, e um jovem escritor interessado em uma grande história. Piscine começa de sua infância, a anedota da origem de seu nome, e de quando deu a si mesmo o apelido de Pi para evitar piadas na escola, e que envolveu seus prematuros conhecimentos de matemática. Filho de donos de zoológico, Pi cresceu cercado de animais, embora seu maior interesse tenha sido sempre a religião. Ou melhor, as religiões. Mais velho, vê sua família ser obrigada a vender seu zoológico e se mudar para o Canadá, e parte em uma viagem transportando animais em um navio. Uma tempestade assola o barco, e após um terrível naufrágio, restam em um bote apenas Pi, uma zebra, uma hiena, um orangotango, e um tigre de bengala adulto chamado Richard Parker.

Foi impossível não me identificar com o personagem logo quando conta sobre suas aventuras religiosas quando criança. Quem me conhece mais intimamente sabe do meu profundo interesse por religiões, primitivas ou modernas, algo que vem desde minha infância e que carrego comigo até hoje, chegando ao ponto de ter um absurdo altar, digamos, bastante versátil no meu quarto, que vai de deuses gregos, passando por mandalas budistas, ícones bizantinos, santas e até mesmo um Mestre Yoda. Não costumo falar muito sobre isso, mas acho a ocasião apropriada, considerando que encontrei um personagem na ficção que compartilha da minha cosmovisão.

Minha ligação com Pi não cessa por aí. Quem me conhece mais intimamente também sabe do meu fascínio por zoologia desde a infância. Quando criança, inúmeras vezes incomodava minha família, seja para comprar livros velhos de biologia em sebos, ou para uma ida ao zoológico. Estava certo, durante boa parte da minha vida, que seria um zoólogo (por que na minha mente infante, não havia nada que me impedisse de ser cineasta e zoólogo ao mesmo tempo). E não é que o personagem interpretado (muito bem) por Suraj Sharma partilha desse grande interesse também?  O mais fascinante é que são esses dois interesses, pelo mistério da fé e pela zoologia, que o mantém vivo até o final da jornada.

A adaptação de Ang Lee e do roteirista David Magee é extremamente eficiente. E como quase toda adaptação eficiente, seu maior mérito é o desprendimento, e não a fidelidade. O filme funciona como algo independente, e ao mesmo tempo, que adiciona muito aos causos contados por Yann Martel.

As mudanças começam a partir do personagem principal. Pi me parece mais velho no filme, o que justifica seu interesse romântico que, embora inexistente no livro, eleva o sofrimento de deixar a Índia e insere um ingrediente a mais no complicado caldo da chegada da vida adulta. É atenuado o interesse do personagem por zoologia, que ele aplica ao treinar Richard Parker (algo que no filme acontece de maneira muito menos incisiva – ele não chega a dominar o animal na adaptação) e também aplica no emblemático e violento momento do livro que envolve uma tartaruga, cena que foi limada no cinema (provavelmente para manter uma censura PG-13).

A grande diferença, e não havia como não ser assim, é em relação à passagem de tempo. No filme de Ang Lee não temos noção de quanto tempo se passa na história – no livro, 227 dias, uma quantidade exorbitante e fabulesca de tempo. No cinema, não chegamos a sentir a decomposição dos corpos da zebra, da hiena e do orangotango – na verdade, o filme não nos mostra o destino dos cadáveres, embora não seja difícil imaginar. A passagem pela “ilha carnívora” que dura apenas um dia, no livro é descrita como vários dias. Enfim, o livro obviamente proporciona uma experiência temporal maior, e por isso mesmo, o sofrimento e a solidão de Pi são dilatados e destilados pela narração do personagem, tornando o leitor íntimo dos pensamentos e do caráter em transformação do personagem.

O filme preocupa-se mais na transformação pelo sublime do que pelo sofrimento. E isso não é um defeito, é uma perspectiva diferente de enxergar a mesma história. Em uma passagem exclusivamente cinematográfica, Pi, que ouviu de sua mãe a história da boca de Krishna onde era possível enxergar todo o universo, projeta seu olhar através dos olhos do tigre, que fita a profundidade do oceano. Acompanhamos o olhar submergir, atravessar os peixes, vemos peixes comidos por mamíferos atacados por invertebrados, animais do zoológico, bolhas formando semblantes familiares, o cosmo e o navio. Uma epifania que Pi e seu totem, Richard Parker, partilham em um momento que se tornam um só.

Nesse aspecto do sublime,  a trilha musical de Mychael Danna, a fotografia de Claudio Miranda e o design de produção do filme de David Gropman se unem para gerar o efeito. Para quem não sabe, o sublime é um conceito estético que determina a inferioridade de um indivíduo frente ao imensurável, e que gera, ao mesmo tempo, prazer e impotência causada pela inacessibilidade de algo tão extraordinário quanto a natureza. Esse conceito é o que orienta a fotografia e o design dessa obra de Ang Lee, que usa grandes contrastes entre cores fortes, muita luz e computação gráfica, tudo justificado pelo efeito do sublime. Não se trata apenas de uma “amostra de TV full HD” como se disse por aí, e sim de um conceito plástico calcado na transformação da visão de mundo do personagem principal.

O CGI, por sinal, merece uma atenção exclusiva. Os animais gerados a partir de computação gráfica são de um realismo assustador, e ainda mais impressionante é a interação dos atores com os animais no mesmo plano, que jamais entrega ou grita a artificialidade, a não ser em momentos que essa é deliberadamente assumida – como no icônico encontro com a baleia. O momento em que o menino de fato toca no tigre e coloca sua cabeça no colo, num momento fragilizado, é de fazer os leigos pensarem que um animal foi de fato treinado para agir e atuar, dado o tamanho realismo.

E todos esses conceitos Рo totem, a cosmoviṣo, o sublime Рculminam no rito de inicia̤̣o de Pi Рpara a vida adulta, para o desprendimento, para a supera̤̣o de perdas, para a autoaceita̤̣o, para a separa̤̣o de seu totem Рindependente do destino de Pi, que ṣo esses e mais um pouco, o que interessa, no final das contas, ṣo sempre as aventuras.

Nesse sentido, a tradução brasileira, apesar dos fatores comerciais que a motivaram, foi muito feliz, até mais que o nome original.  Na raiz da palavra, “aventura” vem de ad ventura – algo como “aquilo que deve ser alcançado”E Pi tem muitas coisas a alcançar ao longo de sua viagem – independente de qual das “versões” apresentadas pelo protagonista o espectador escolha.

 

Poltronas 

5

Comentários

imagem de Elisa e Jose Leopoldo

Enviado por Elisa e Jose Le... (não verificado) em seg, 02/25/2013 - 10:07

Achamos maravilhosa a tua crítica e o filme deve ser fantástico,estamos entusiasmados para assistí-lo Abração dos avós.

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