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Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)

imagem de Ghuyer
Enviado por Ghuyer em qui, 01/29/2015 - 18:56

Tentei resistir ao impulso de começar essa crítica dizendo que Birdman e (seu subtítulo enorme e presunçoso) é um filme tão bom que nem parece filme do Alejandro Gonzáles Iñárritu (mas claramente não resisti). Queria ter resistido, porque é uma injustiça com o Iñárritu. Ele já fez filmes bons (adoro 21 Gramas). Mas a vontade de começar a crítica com essa constatação se deu porque Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância) (Birdman or (The Unexpected Virtue Of Ignorance), EUA, 2014) se destaca com facilidade como a melhor coisa que o Iñárritu fez na vida, e é totalmente diferente de todos os seus trabalhos anteriores.

Aqui, o roteiro escrito por ele (e mais três caras) explora a jornada psicológica de um ator ex-superastro que tenta conquistar algum prestígio artístico no teatro. Michael Keaton interpreta Riggan Thomson, esse cara que duas décadas atrás ganhava fama e rios de fãs vestindo a capa do super herói Birdman, mas que, cansado da mesmice, abandona a túnica que definia sua carreira, entra no esquecimento, e tempos depois inventa de montar uma peça de teatro readaptando um texto clássico de Raymond Carver. Na posição ególatra de diretor, escritor e ator, Riggan enfrenta uma série de imprevistos que se colocam no caminho da produção do espetáculo, e o filme acompanha o protagonista durante esse período cheio de complicações.

Para explorar com estileira a psique atormentada de Riggan, Iñárritu aposta no retrato do sujeito como uma espécie de jedi urbano - e funciona bem pra caralho. POIS É! Faz sentido, garanto. Ao mesmo tempo em que escuta a voz interna de Birdman o atormentando, Riggan move coisas com a mente e até voa em determinados momentos. De um lado (a voz), há sua insegurança dando as caras (ou sons). Do outro (os poderes), seu ego e orgulho tentando falar mais alto. O contraste desses dois aspectos da personalidade de Riggan, na forma como são apresentados, funcionam inacreditavelmente bem. Através dessas decisões criativas inesperadas e absurdas, o estado mental do protagonista fica exposto sem firulas ao longo do filme.

Complementando a lista de escolhas atípicas e inusitadas no caderninho de Iñárritu, está a ideia de filmar tudo como se fosse um gigantesco plano-sequência de duas horas, embalado por uma trilha sonora de percussão cheia de floreios jazzísticos improvisados (obra brilhante do compositor Antonio Sanchez). Devido a movimentos de câmera impossíveis e a passagens temporais impraticáveis em single takes, é fácil de constatar que aquela acrobacia mágica que o diretor de fotografia Emmanuel Lubezki faz com as câmeras se trata na verdade de vários planos emendados discretamente como se fossem um só. Mas a montagem preparada na pré-produção por Douglas Crise e Stephen Mirrione é tão ninja, que os cortes são de fato imperceptíveis. Só se nota por esses motivos apontados acima, racionalmente, pois visualmente é impossível perceber qualquer frame fora do lugar. De qualquer forma, a ideia de filmar tudo parecendo um plano-sequência é acertada em vários sentidos. Primeiro porque insere na narrativa uma sensação de imediatismo e urgência (afinal faltam poucos dias para a estréia da peça começar e vários problemas surgem de forma imprevista). Depois, considerando que essa é uma história sobre a produçao de uma peça, e que a maior parte das cenas se passa nos camarins de um teatro da Broadway, a movimentação de câmera orquestrada por Lubezki causa uma forte impressão de “backstage”, por assim dizer, como se o espectador estivesse assistindo a um documentário ao vivo realizado nos bastidores daquele espetáculo teatral em construção - e para isso também contribui enormemente a direção de arte labiríntica de Kevin Thompson, que transforma aqueles aposentos e corredores em uma verdadeira metáfora para a mente de Riggan.

Em terceiro lugar, a fotografia de Lubezki também serve para tornar os delírios de grandeza de Riggan mais palatáveis e visualmente interessantes. Dentro daquela estética fluida, os poderes especiais imaginários do protagonista não soam deslocados, e se encaixam muito bem na proposta do filme. E, no entanto, nada dessa carpintaria técnica prestaria se o grande centro do projeto não tivesse sido encarnado de forma tão apaixonada como fez Michael Keaton. Um bom ator constantemente subestimado e há tempos longe de um papel relevante, Keaton vê aqui sua chance de subir à fama e ao prestigio novamente (não diferente de seu personagem), e entrega uma atuação cheia de vida, esbanjando talento.

Junto com ele, Edward Norton brinca de ser genial, e apenas sua primeira cena já justificaria uma indicação a qualquer prêmio de melhor ator coadjuvante. Fazia tempo que ele não brilhava assim também. Zack Galifianakis, Naomi Watts e Andrea Riseborough estão muito afiados em seus papéis, mas, completando o elenco principal junto com o Batman do Tim Burton e o Hulk Antes do Ruffalo, vem mesmo a recém falecida Gwen Stacey. Explosiva como a filha de Riggan, Emma Stone é dona do diálogo mais matador de todo o filme, quando decide confrontar o pai, e em nenhum momento surge menos do que ótima (merecidíssima indicação ao Oscar).

Já que falamos em diálogo, vale dizer que Birdman está repleto de diálogos sensacionais. Inclusive é possível ver a alegria dos atores em poderem vociferar tantas falas bem construídas e impactantes. Não há uma conversa que não seja interessante. Desde as disputas mentais entre Riggan e seu alter-ego até seu desabafo final para a crítica de teatro Tabitha (Lindsay Duncan), passando pelas discussões com o complicado ator interpretado por Norton (ele mesmo complicado na vida real), e as frases certeiras disparadas pelo produtor Jake (Galifianakis), Iñárritu e seus três amigos roteiristas (Alexander Dinelares, Armando Bo, Nicolás Giacobone) destilam vitória verborrágica ao longo das duas horas do filme.

Ao mesmo tempo em que disseca a psicologia de seu protagonista, Birdman também aproveita para fazer uma ácida e certeira crítica às concepções cegas e burras que tentam dividir o cinema entre “popular” e “de arte”, como se para ser arte um filme não pudesse ao mesmo tempo ser divertido e repleto de explosões e efeitos visuais. Ao mesmo tempo em que mete o dedo na ferida dos blockbusters pasteurizados produzidos em série sem grande inspiração criativa em Hollywood, o longa não exita em ridicularizar os “críticos de arte” que se dizem donos da verdade na hora de apontar o que deve ser levado a sério e o que é bobagem. O roteiro evita demonizar o populesco ao mesmo tempo em que evita endeusar o intelectual, mas passa longe de apenas criticar por criticar os dois lados. Afinal, aqui temos um ex-astro tentando ganhar prestígio novamente através do teatro (“uma coisa séria”) e não do cinema (“uma arte menor”), mas que, ao longo de sua empreitada, vai se dando conta de que uma coisa não tem necessariamente nada a ver com a outra. O grande momento dramático de Birdman é a já referida fala da Emma Stone confrontando Keaton, e o que a personagem diz ali já resume toda a parada temática do longa.

Com diálogos esculpidos belamente pelo roteiro, e corporizados de forma não menos brilhante pelo elenco chutador de bundas, que é capturado por uma fotografia impecável, e dirigido com especial maestria, Birdman é um formidável passeio cinematográfico do mais alto nível.

Poltronas 

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