O Vingador do Futuro

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Enviado por Ghuyer em qua, 08/15/2012 - 23:14

A primeira coisa a ser dita sobre O Vingador do Futuro (Total Recall, EUA, 2012), refilmagem da homônima ficção científica de 1990 dirigida por Paul Verhoeven e estrelada por Arnold Schwarzenegger, é que, se havia alguma estratégica mercadológica canalha para o filme original ter esse título no Brasil, devido unicamente ao fato de ser protagonizado pelo astro de O Exterminador do Futuro, agora, em 2012, já não tem o mesmo efeito e não faz o menor sentido. Primeiro, porque não há nenhum vingador na história; segundo, porque, se houvesse um, ele não viria do futuro, já que, apesar de a história de Total Recall se passar no futuro, a mesma está longe de envolver viagens no tempo.

Inspirada em um conto do escritor Philip K. Dick, a trama do filme acompanha um homem que, ao experimentar os serviços de uma empresa que promete implantar memórias falsas na mente das pessoas, acaba se descobrindo na verdade como um agente secreto que teve a memória apagada, e passa então a ser perseguido pela polícia.

No papel de Douglas Quaid, que antes pertenceu ao Governator, Colin Farrell não encontra problemas em evidenciar o pânico crescente do personagem enquanto se vê cada vez mais encurralado, não se esquecendo, porém, de demonstrar com cuidado o modo como o sujeito vai aos poucos voltando a se acostumar com suas habilidades de super espião. No outro lado, Bryan Cranston destila veneno como o chanceler Cohaagen e deixa clara a ameaça que representa, mesmo aparecendo pouco em cena. Já, vivendo o interesse romântico do protagonista e exibindo uma atuação decente pela primeira vez em sua carreira, Jessica Biel conquista o espectador pelo temor estampado nos olhos de sua Melina (fator importantíssimo para determinada cena), ao passo que Kate Beckinsale diverte como a obsessiva Lori, oferecendo uma antagonista à altura do herói.

Com o elenco a postos e uma produção caprichada, o diretor Len Wiseman consegue nos entregar um filme divertido e cheio de méritos, ainda que não consiga empregar o mesmo tom apocalíptico que dominava o longa original.

Por ter iniciado sua carreira como designer de produção, é notável que Wiseman sempre dedique bastante atenção na direção de arte de seus filmes – mesmo a fraca série Anjos da Noite apresenta artes conceituais belíssimas – e não é a toa que um dos detalhes mais impressionantes de Total Recall seja justamente a grandiosidade de seus cenários, repletos de homenagens a Blade Runner e brilhantemente concebidos por Patrick Tatopoulos, que já havia se aventurado na ficção científica em Eu, Robô.

Buscando aproveitar o máximo de sua complexa e bela cenografia, o cineasta trabalha junto com o diretor de fotografia Paul Cameron para criar algumas tomadas de cena sensacionais, como o travelling que mostra o protagonista redescobrindo suas habilidades marciais e derrotando cerca de dez homens armados em cerca de poucos segundos, ou as panorâmicas aéreas que retratam sua fuga pelos telhados cidade, em uma estética que remete inclusive à visão interativa de alguns videogames.

Em sincronia com a boa trilha sonora de Harry Gregson-Williams e contribuindo para o bom ritmo da narrativa, embora cometa um que outro equívoco durante o terceiro ato, o montador Christian Wagner no geral acerta a mão, não exagerando na velocidade dos cortes durante as cenas de ação, permitindo ao espectador conferir a maior parte do que ocorre em cena sem ficar confuso – e nesse sentido a perseguição nos elevadores merece certo destaque pela complexidade do trabalho de montagem envolvido.

Ao final de tudo, muito embora o roteiro escrito por Mark Bomback e Kurt Wimmer busque reinventar vários detalhes do enredo, acertando na maioria, como ao incluir alguns quebra-cabeças a mais para o protagonista resolver, a essência da história permanece intacta neste que é paradoxalmente o maior acerto e maior problema do filme.

É um acerto porque o filme soube utilizar o que história tinha de melhor, preservando as reviravoltas-chaves da intrincada trama, mas é um problema porque a maior parte da dramaticidade e da urgência da narrativa se perde para quem estiver com o filme original fresco na memória. Porém, considerando buscar novos públicos para a ficção científica, essa refilmagem é uma aposta válida e muito bem conduzida por Len Wiseman.

Poltronas 

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