Mundo Perdido: Jurassic Park

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Enviado por Giordano em sex, 06/12/2015 - 02:10

Jurassic Park, mais do que um recordista de bilheteria, foi um marco cultural, uma pedra fundamental na formação de crianças que cresceram nos anos 90. Uma grande parte das que tiveram acesso à essa obra prima de Steven Spielberg desenvolveram um apreço pela temática da biologia, zoologia e paleontologia, despertando inúmeras reflexões que casaram-se com outras preocupações da década, como o próprio tema da clonagem e a pesquisa genética. É possível inclusive que a resposta mais popular para a pergunta "O que você quer ser quando crescer" tenha se deslocado de "astronauta" para "paleontólogo".  A aventura de Steven Spielberg e Michael Crichton trouxe sua pegada " Amblin", mas com a gigantesca ambição tecnológica de construir com perfeição a ilusão da volta dos dinossauros à vida. Apesar da criatividade visual, da perfeita manipulação emocional da câmera de Spielberg somada à trilha de John Williams, do roteiro amparado em personagens icônicos, o grande diferencial da produção, e possivelmente aquilo que tornou o filme um fenômeno foi o milagre da vida concebido pela manipulação de animatrônicos, computação gráfica e uma pluralidade de técnicas que constituem a empreitada genética, que narrativamente se origina do mosquito no âmbar que Dr. John Hammond carrega tão orgulhosamente. Ao nos depararmos pela primeira vez com um brontossauro alimentando-se, somos espelhados na tela pelo efeito do sublime, de impotência frente à magnitude da natureza, que é escancarado nos rostos de Sam Neil, Laura Dern e Jeff Goldblum. Estávamos sendo bem vindos ao Jurassic Park. E o resto é História.

Em retrospecto, me parece inevitável que o passo seguinte após essa apoteótica concepção não fosse além de uma nota de rodapé para essa História. O universo concebido por Spielberg em Jurassic Park foi tão bem engendrado e manipulado, que não restava ao espectador nada senão memórias, e a vontade de voltar de novo e de novo ao parque, de maneira semelhante ao efeito que uma Walt Disney World age em uma criança. No entanto, encontrar o Castelo da Cinderela, a Mansão Mal Assombrada, os Piratas do Caribe ou o Small World pela primeira vez, para uma criança, é uma experiência única. É um exercício sempre frustrante esperar que um encantamento funcione novamente com a mesma intensidade. O Mundo Perdido: Jurassic Park já sofre de antemão deste mal. Sendo uma franquia mais alicerçada em um universo e conceitos do que em uma narrativa, não me parece que há uma condução natural ou possibilidade de superação. Mas o desejo de retornar segue em qualquer espectador que assistiu ao primeiro filme, e é com o intuito de responder a esse desejo que surge a inevitável sequência

Mas é claro que a impossibilidade de superar ou se igualar ao original não justifica as simplificações e soluções superficiais do roteiro de Mundo Perdido: Jurassic Park. David Koepp, prolífico roteirista hollywoodiano dos anos 90 e 2000, com filmes como Missão: Impossível (1997) e Homem Aranha (2001) no currículo, parece um tanto sem rumo com a ausência da parceria com Michael Crichton que rendeu os grandes personagens e a maravilha estrutural de Jurassic Park. Sem a segurança do autor dos livros em que se baseia, Koepp já parte de uma construção pobre de protagonistas, que se resumem a reprisar os tipos do primeiro filme. No lugar do carismático megalomaníaco John Hammond, temos o genérico Dr. Peter Ludlow. No lugar da curiosa e maternal Dra. Ellie, temos a genérica Sarah Harding, vivida por Julianne Moore. No lugar do cínico dr. Ian Malcom, temos o genérico ativista Nick Van Owen, interpretado por um jovem Vince Vaughn. E no lugar do carrancudo porém heroico dr. Alan Grant, temos o próprio Ian Malcom de Jeff Goldblum, que retorna em uma versão descaracterizada de si mesmo, sem o sarcasmo e a pedância que tornou seu personagem tão marcante. Para preencher a cota infantil, no lugar de Lex e Timmy, temos Kelly, filha do Dr. Ian, introduzida na trama de forma nada orgânica. Para um cineasta como Spielberg, que construiu sua carreira sobre personagens fortemente caracterizados e marcantes, essa gama de figuras genéricas parece um ponto de partida um tanto equivocado.

Ao invés de seguir o destino da lata repleta de DNAs de dinossauros roubadas pelo ganancioso e preguiçoso hacker Dennis Nedry, que se perdeu na floresta após o ataque de um dilofossauro, a história de Mundo Perdido tem início quando John Hammond revela que há uma ilha (próxima à Ilha Nublar, cenário do primeiro filme), em que as criaturas cresciam antes de serem levadas para o parque, e que continuaram se desenvolvendo naturalmente anos após o desastre, e que sofre com as ações de caçadores e com a ameaça da exploração comercial.

O roteiro de Koepp, apesar de ser inegavelmente o ponto fraco do filme, possui alguns méritos. Diferente do sucessor Jurassic Park III e diferente da maior parte das franquias milionárias, Mundo Perdido assume riscos. Um dos grandes acertos é a introdução do conceito de caça de dinossauros a partir do personagem Roland Tembo (vivido por Pete Postlethwaite), o personagem mais empático, complexo e ambíguo da franquia, que infelizmente é pouco explorado. A própria ideia de trabalhar em cima não do parque abandonado, mas de animais que cresceram em ambiente selvagem, já é uma inovação potencial que o roteiro traz. Por fim, o maior risco assumido por Koepp é estrutural: apresenta um falso final e uma espécie de longo epílogo, envolvendo o transporte de um T-Rex para a cidade de San Diego. Esse risco foi um dos grandes responsáveis pela má fama do filme, por soar deslocado. No entanto, saio em defesa do arrojo narrativo e da estranheza dessas sequências urbanas, homenagens diretas a grandes inspirações de Spielberg: o cinema dos kaiju, como Godzilla (1954) e o clássico americano King Kong (1933). É possível ver esse terceiro ato como um insólito e inesperado frescor injetado em um filme com poucos momentos inspirados do ponto de vista narrativo. Ou como um incômodo e artificial anexo. De qualquer maneira, é um risco. Para o bem ou para o mal, o próprio roteirista é visto sendo devorado pelo T-Rex nas ruas de San Diego.

A falta de imaginação do roteiro de Koepp e as comparações com o original rendeu para o filme uma injusta fama de bomba cinematográfica, o que não poderia estar mais longe da verdade. Spielberg contorna a mediocridade do roteiro com uma condução segura e com o já conhecido talento de manipular emoções e tensões do espectador, através da belíssima sintonia entre a trilha de John Williams e a câmera do fotógrafo Janusz Kaminski, uma nova adição para a equipe, que trouxe para Mundo Perdido um look bem diferente de Jurassic Park. Se o primeiro nos trazia, na maior parte do tempo, uma paleta ensolarada e um grão de aventuras de matinê, esse segundo filme trabalha com mais sombras, luz dura, um maior contraste, e matizes mais escuras, oferecendo uma densidade noir à atmosfera do filme. Spielberg, Kaminski, Williams, o editor Michael Kahn, frequente colaborador de Spielberg, e toda a equipe de efeitos especiais uniram forças para criar uma das mais eficientes sequências do cinema dos anos 90: o ataque dos dois T-Rex ao trailer no desfiladeiro, que culmina no tenso plano de Julianne Moore no vidro traseiro, a segundos por estilhaçar. Por si só, essa sequência já valeria o filme, mas juntam-se a ela a primeira cena dos caçadores, o ataque dos raptors na grama alta, a comédia física dos compsógnatos atacando o estúpido personagem de Peter Stormare, entre outros momentos riquíssimos na manipulação dos sentidos, que fazem com que, se tivermos boa vontade, deixemos de lado o ridículo momento em que Kelly mata um velociraptor com um movimento de ginástica olímpica.

Sobre a principal atração - os dinossauros em si - o show orquestrado por animatrônicos, marionetes e CGI segue impressionando, com novos adendos à fauna, como o estegossauro (um dos favoritos das crianças e ausente do primeiro filme), o paquicefalossauro, os pequenos e perigosos compsógnatos. Não há mais apenas um tiranossauro, mas três, sendo que o terceiro - o filhote - é considerada pela equipe de efeitos especiais como a grande obra prima da série do ponto de vista artesanal. Seria a última vez na série que veríamos o maravilhoso equilíbrio entre as técnicas para construir a ilusão de vida, que ao menos para mim, é uma das grandes atrações dessa dupla de filmes. Uma atração que infelizmente se perde nas sequências seguintes, que confiam plenamente na tecnologia datada da modelagem digital.

Jurassic Park e Mundo Perdido, por um tempo, me fizeram querer ser paleontólogo. No entanto, a manufatura da ilusão que os making ofs utilizados como divulgação me ofereceram o insight acerca das limitações da paleontologia, das quais não sofre o cinema, que se permite "encontrar um jeito" para construir vida e nos convencer por algumas horas de que esses animais ainda podem andar sobre a terra. Graças a Jurassic Park, sempre tive poucas dúvidas quanto a minha resposta para a pergunta "Com o que você quer trabalhar quando crescer?". Não, não paleontologia. Cinema.

O carinho que desenvolvi por Mundo Perdido não me cega para suas falhas narrativas e estruturais, mas permite sempre que eu me deixe encantar mais uma vez por essas ilusões tão bem orquestradas.

Poltronas 

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