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Web of Adaptations

Enviado por Pedro em qui, 07/21/2011 - 17:24

 

Sou fã de Homem-Aranha. Chorei em 2002 durante a sessão de pré-estréia do primeiro filme. Coleciono os quadrinhos praticamente ininterruptamente desde 1996 e felizmente consegui angariar algumas edições mais antigas e graças a Internet consegui me inteirar das fases clássicas – como por exemplo a origem do uniforme negro e do Venom, o que realmente aconteceu na ponte do Brooklyn com o Aranha e o Duende Verde, todas as mentiras envolvendo os pais de Peter Parker e os vários casos de amor da Tia May.

Ontem (dia 20 de julho) apareceu o primeiro trailer oficial do novo filme, Amazing Spiderman, que tem estréia prevista pro verão americano do ano que vem. Não quero discutir aqui diretores e atores. Tenho problemas com alguns deles – especialmente James Franco nos três primeiros filmes de Sam Raimi; Harold Osborn é um perdedor, um nerd tão nerd quanto Peter e um perdedor. Sempre estragou tudo que fez e no tempo em que Norman, o Duende Verde original, esteve morto ele conseguiu colocar boa parte da fortuna da família fora. Mas adoro o Franco, então nem vou entrar nesse assunto. Também não falarei de efeitos especiais, nem de cenas removidas dos primeiros filmes (como a cena do World Trade Center) ou colocadas como uma afronta (como a cena no terceiro filme em que o Aranha corre na frente de uma bandeira americana).

Quero falar aqui de adaptação. Outros artigos e críticas já apareceram aqui no site falando disso. Mas o Aranha é o meu herói. Sempre foi. Dividimos até o nome. E gosto de achar que eu sei muito, realmente muito sobre ele. E nenhum dos três filmes de Sam Raimi conseguiram sequer mostrar quem o Homem-Aranha realmente é e com o surgimento desse reboot e as primeiras indicações de erros grosseiros de adaptação preciso colocar isso pra fora. Como Jack, o Estripador, irei por partes.

 

Homem-Aranha, de 2002. Dirigido por Sam Raimi, com Tobey Maguire, Kirsten Dunst, Willem Dafoe, James Franco, etc, etc. Nesse filme temos a origem do Aranha e um vilão. Comecemos pela origem. Ninguém nunca acerta. Já vi versões em que até o Doutor Octopus estava envolvido. Nesse filme ele conseguiu pelo menos chegar perto. Mas não era uma excursão de escola na qual Peter Parker é um fotografo perdedor e tímido. Peter sempre foi um gênio. De fato, recentemente alguns vilões do universo Marvel fizeram uma lista das maiores mentes e o Aranha aparecia em décimo primeiro. O que não é pouca coisa quando Bruce Banner está em décimo e Tony Stark em oitavo (Reed Richards encabeçava a lista). Ele estava era trabalhando num programa de estudos avançados que pesquisava aplicações da radiação em animais, especialmente insetos. Sim, estamos nos anos 60. Radiação era a engenharia genética deles. E foi nessa que Raimi entrou e fez uma aranha mutante que, sabe-se lá porque, infecta a quem morde com uma mutação genética espontânea. “Dã” foi a única coisa que me veio a mente. Mas o cara engole, porque os anos 60 foram há 40 anos atrás e tem que vender bonequinho pra criança. Só que essa mutação criou uma coisa que, sério, mesmo tendo chorado na sessão, me enjoou o estômago. Teia orgânica? Não. O pai de Peter Parker era um gênio da química que trabalhava pro governo e quando morreu num acidente de avião – que já serviu pra eles voltarem, morrerem de novo, serem clones feitos pelo Caveira Vermelha, etc, etc – deixou inacabado um projeto de um adesivo para uso militar e policial que aderiria a qualquer coisa e se desmancharia depois de algumas horas, sendo perfeito para prender temporariamente criminosos ou prisioneiros de guerra. Influenciado pelo fato de que seus super-poderes que começavam a aparecer lembravam os de uma aranha – e tinha sido, de fato, uma aranha que tinha o contaminado – Peter termina o projeto do pai inventando também dois braceletes. O Aranha aperta a palma da sua mão com o dedo médio e anelar – naquele movimento de mão que permeia nosso imaginário de super-heróis – porque ali fica o disparador dos lançadores de teia. Em volta do punho – e às vezes no seu cinto também – ele armazena pequenas capsulas onde o fluído de teia fica guardado com uma tecnologia de compressão que ele também inventou.

É mencionado diversas vezes ao longo dos anos que se Peter não tivesse ganho poderes – isso inclusive é mostrado em episódios de realidade paralela – ele provavelmente teria se tornado um dos maiores cientistas de sua época. Isso não aparece nesse filme de forma alguma (de fato, como vou mencionar, praticamente não aparece em nenhum dos filmes).

Mas vamos a outra coisa, talvez mais importante e em duas partes. Parte um: Mary Jane. Peter Parker tem três importantes namoradas antes de Mary Jane. Gwen Stacy, Betty Brant e Felicia Hardy. Stacy é mostrada da pior forma possível no terceiro filme (falarei disso quando chegar a ele) e Betty é mostrada praticamente como uma figurante neste primeiro filme. Sim, ela é a secretária de J. J. Jameson Jr., interpretada por Elizabeth Banks. Ela tem duas cenas no filme e a sua importância para a carreira jornalística (ela sempre ajudou Peter nisso) e na sua vida pessoal (novamente, “dã”, ela foi namorada do cara) é totalmente ignorada. Felicia Hardy aparece no filme, mas é preciso assistir o filme dez vezes pra notá-la andando na “galerinha” do Flash Thompson e da Mary Jane (aliás, uma nota: Flash Thompson moreno e como um simples bully da escola? Nessa hora eu disse alto dentro da sala de cinema: Sammy, vai ler os quadrinhos!). Ela não apenas é a namorada de verdade do Flash durante os anos de escola, como é uma rica mimada que acaba se tornando a ladra Gata Negra, personagem essencial na vida do Aranha. Mas para essas duas eu daria liberdade poética pro Raimi fazer o que quisesse, inclusive nem colocar direito nos filmes. O que eu não admito é Mary Jane. Sabe por que? Pra isso precisamos falar antes do Duende Verde.

Não só ele não era o primeiro inimigo do Aranha como a relação dos dois é complicada e longa. Ele manipulou e destruiu a vida de Peter de todos os lados e raramente diretamente. Osborn é rico e verdadeiramente malvado. Ele contratava gangues, espiões, envenenava a cidade. Mas tudo bem. Liberdade poética, certo? A batalha na ponte do Brooklyn realmente acontece. Mas a namorada a ser largada é Gwen Stacy e, infelizmente, o Aranha não consegue salvar ela. Ela morre. Sim. Na vida real os heróis nem sempre conseguem salvar um bondinho cheio de crianças e a menina que eles amam. Ela caí, se choca contra o asfalto e morre nos braços do Aranha que nunca consegue dizer nada pra ela. E sim: o Duende Verde morre exatamente como ele morre nos filmes. Só que não num prédio abandonado, mas em cima da ponte. Essa ponte tem todo um significado simbólico pra história do Aranha. Raimi não entendeu isso, eu acho.

E é por isso que MJ é inadmissível: ela é a mulher que entra por acaso na vida de Peter Parker e lhe dá esperanças de novo de amar e de poder ser o Homem-Aranha e ainda assim poder ser feliz.

 

Homem-Aranha 2, de 2004. Mesmo elenco. Mesmo diretor. Com a adição de Alfred Molina como o péssimo Dr. Octopus/Otto Octavius. A primeira coisa a ser tratada é a seguinte: não, senhor Raimi, os poderes do Homem-Aranha não desligam quando ele fica deprimido. Não, mesmo. Essa é a sina dele. Tanto que quando nos quadrinhos aparece Ben Reilly, o clone de Peter, ele foge e ainda assim não consegue deixar de usar seus poderes pra salvar as pessoas. Esse é o Homem-Aranha, isso é quem ele é. Mas isso é o que eles chamam de estratégia hollywoodiana; tem que ter esse aspecto emocional. Mas sabe qual aspecto seria ainda mais emocional? Ele ter enterrado a namorada que ele mais amou e agora não achar sentido pra vida de super-herói.

O que nos leva ao Dr. Octopus e o Peter Parker mais imbecil de todos os tempos. Ele conhece Otto Octavius assim mesmo, pesquisando sobre o trabalho do cara. Mas eles dois são gênios. O Aranha avisa ele que o experimento não dará certo. Eles se conhecem e se respeitam como cientista. No filme, Peter poderia ser um jornalista de uma revista científica. Já Octavius faz tudo do mesmo jeito e a mulher dele realmente morre. Mas não tem chip de controle dos braços mecânicos que deixa ele louco. Ele fica louco como a maior parte das pessoas realmente fica: meu sonho matou minha mulher. Ele não é um lunático mendigo. Ele é a droga do Dr. Octopus. Um gênio do mal, que quer dinheiro e poder. Não quer reconhecimento. De fato, ele não pode se importar menos com isso. Tanto que é por isso que ele se une com outros vilões, como Kingpin (Rei do Crime), para fazer dinheiro, para conquistar a cidade. Ou seja, ele não é louco. Ele é mau. E sobre o próprio Peter, bom, já deixei claro: ele é um gênio, não um graduando mal das pernas com um professor Curt Connors (que aliás já não tem o braço. Que cronologia é essa?) que lhe dá dicas de como ir melhor nas aulas. Parker já era chefe de laboratório nessa época, que aliás é uma das épocas na qual ele mais tem dinheiro.

E isso tudo nos leva a grande história da primeira grande derrota do Dr. Octopus: o Aranha vence ele e ele finalmente vai para a cadeia as custas da morte de um grande amigo e incentivador – o capitão Stacy. Lembra desse nome? Sim, é o pai de Gwen. Agora me explica pra que inventar todas essas estratégias emocionais se o herói original já as tinha? Acabaria outro filme, com ele tendo que largar os estudos pra se dedicar a ser Homem-Aranha, ele largando Betty Brant porque não consegue mais mentir pra ela e não consegue aguentar o fato de que ela pode ser a próxima a morrer. Os filmes do Christopher Nolan do Batman fazem sucesso por causa disso: ele mergulha na tragédia que o personagem já tem como essência de seu ser. E olha que vende bonequinho, hein?

Vamos logo para o terceiro filme?

 

Homem-Aranha 3, de 2007. Mesmo elenco, Raimi se uniu com seu irmão pra escrever o roteiro dessa abominação da adaptação de quadrinhos para o cinema que rivaliza com Capitão América de 1990 ou com a série de TV do Hulk. Raimi cometeu a pior gafe de todas nesse filme: adaptar o Venom. Até naquele desenho animado bem legalzinho que tinha nos final dos anos 90 (pra quem não lembra, dava na FOX na mesma época daquele desenho clássico dos X-Men e a primeira leva de Power Rangers) eles cometeram essa mesma monstruosidade. No desenho era o filho astrounauta de J.J. Jameson – que aparece no Homem-Aranha 2 como namorado/noivo de Mary Jane – quem trazia do espaço a entidade alienígena melhor conhecida como simbionte. Mas a história dos quadrinhos é talvez uma das grandes narrativas impossíveis de adaptar. Acontece durante uma daqueles sagas da Marvel, que envolvem todos os personagens, chamada Guerras Secretas. Uma entidade alienígena quase onipotente convoca (um eufemismo pra sequestra) diversos seres super-poderosos de todos os cantos do universo (e até de outras dimensões) para combaterem num torneio que decidirá o destino da galáxia. Amedrontado, o Aranha enfrenta seu primeiro desafio e usando de sua inteligência (sim, sua inteligência) ele vence, mas seu uniforme fica praticamente todo destruído. Só a máscara se mantém intacta (artifícios dos quadrinhos, né?), mas para a sorte do aracnídeo um dos organizadores do evento oferece pra ele um prêmio pela sua vitória: uma pequena bolinha preta presa numa câmara de estase. Ao tocar na esfera, ela se transforma em diversas faixas de tecido que envolvem o Aranha e criam pra ele um uniforme – que neste momento é apresentado como de moléculas instáveis – indestrutível. Essa saga continua, Peter volta pra Terra e, sério, só anos depois ele começa a perceber que o uniforme esta lhe fazendo mal (de fato, devorando seu cérebro).

Como que vai adaptar isso? Impossível, né? Então sabe o que deveria ter sido feito: outra história. O Aranha tem centenas de inimigos e dezenas de sagas que poderiam facilmente ser adaptadas pro cinema. O Venom não é uma delas. E pra não perder a viagem, ele já estragou a relação do Peter com a Mary Jane (nesse ínterim no qual ele se desvencilha do uniforme negro, eles casam) e colocou uma deformação total: Gwen Stacy como uma loira imbecil (interpretada por uma Dallas Howard muito sem expressão) que namora um Eddie Brock magrelo e ridículo. Sim, Topher Grace, Brock era um covarde mentiroso, mas tu tinha que ter “puxado ferro” por três anos antes de interpretar ele. Venom não fica todo musculoso por causa do simbionte; ele já é!

E pra fechar com chave de ouro, faz um Duende Verde 2, encarnado por Harry Osborn, da forma mais imbecil de todas. Quando o segundo Duende, que na verdade é realmente o Harry, aparece, Peter desconfia de que seja o próprio Osborn que não morreu. Porque o uniforme e armas são iguais! Não tem prancha, nem capacete que abre. E muito menos tem os dois se unindo pela amizade bonita que eles sempre tiveram. Harry fica totalmente louco e Peter é forçado a matar ele (quer dizer, ele acha que matou; anos depois se revela que Norman estava por trás de tudo e salva Harry, levando-o para a Europa).

 

Bom, vou fechar esse artigo que me deu alguns anos de vida destilando todo o ódio das afrontas feitas contra meu herói favorito com algumas perguntas sobre o novo reboot. Pelo que dá pra ver no trailer (o link está no final) ele tem lançadores de teia. Mas e a teia? Se a teia for orgânica e o lançador só projetar elas eu juro que vou precisar de toda a minha força pra não sair no meio do filme. Pelo menos a namorada está certa: Emma Stone vai interpretar Gwen Stacy. Perguntas: vai aparecer o pai dela? (aliás o Capitão Stacy aparece no terceiro filme de Sam Raimi – too little too late). E que história é essa dela de jaleco branco? Ela é uma cientista ou que? Gwen era uma moça doce, estudante. Terceira pergunta: Curt “Lagarto” Connors envolvido na origem do Aranha? Duvidoso. E mais duvidoso ainda é que aparentemente ele já aparece direto sem braço. Ou seja, sem a devida história (que muito provavelmente será narrada em flashbacks). Quarta pergunta: bem no início do trailer vemos os pais de Peter. Vai só mostrar ou escorregar na banana de escolher uma das mentiras pra contar? Ou pior, será que vão tentar enredar a história dos pais dele com a própria história do Aranha?

Tenho grandes esperanças e grandes medos em relação a esse filme. Mas uma coisa já dá pra saber: pelo menos Peter Parker não vai ser um baixinho musculoso e nervoso.

 

http://www.youtube.com/watch?v=qJQS16dGk0w&feature=player_embedded

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